Exhumed – “Não pensei que em cinco anos viveríamos fascismo nos EUA”

Matt Harvey critica duramente ações do governo Trump contra imigrantes, e chama seu governo de “fascista”, e expõe sua opinião de como isso afeta o showbusiness do metal nos Estados Unidos.

Em entrevista exclusiva ao Sonoridade Underground, o vocalista e guitarrista do Exhumed discutiu diversos tópicos — do novo disco da banda, Red Asphalt, a estabilidade da formação atual (a mesma desde 2018), até a situação política americana em 2026. O décimo disco da tradicional banda americana, que data do início dos anos noventa, será lançado em 20 de Fevereiro do ano corrente pela Relapse Records, e trata, em especial, das estradas americanas.

A temática do álbum foi parte central da conversa, onde Matt revela que a maior inspiração da banda ao compor o disco foram as estradas americanas, o quanto elas são perigosas, e os acidentes que ocorrem nessas rodovias interestaduais — longas viagens de carro, nos Estados Unidos, são parte central da cultura nacional, e ocorrências nelas são uma das principais causas de mortes no país.
Matt Harvey: “Aí ele comentou: “cara, isso é uma ótima balada de estrada. Como é que não existe nenhuma grande balada de estrada no death metal?”. E começamos a falar de todas aquelas músicas de rock sobre a estrada, desde Turn the Page, do Bob Seger, até Bruce Springsteen e coisas do tipo. E pensamos: bandas de death metal não fazem isso. A partir daí eu pensei: “bom, se existisse um hino de estrada em death metal, acho que seria Red Asphalt”, o que todo mundo achou meio engraçado. Depois disso, estávamos voltando da Austrália. É um voo de umas 16 horas da Austrália até a Califórnia. E quando descemos do avião em Los Angeles, ainda tínhamos mais três horas de estrada para voltar para casa. Basicamente, o nosso “quartel-general” ficava mais ou menos no meio do caminho entre San Francisco e Los Angeles, aqui na Califórnia. Enfim, nem preciso dizer que estávamos completamente jet lagged. Não sabíamos que dia era. Ninguém tinha dormido nada. Estávamos só tentando ficar acordados, conversando besteira durante essa viagem de três horas. Era meio do dia, mas mesmo assim você não consegue se manter desperto. E começamos a falar sobre Red Asphalt e sobre todas as coisas, os perigos das estradas americanas, e também sobre como existe uma certa romantização da estrada nos Estados Unidos. Filmes como Easy Rider e livros como On the Road, do Jack Kerouac. A ideia de que, antigamente, você pegava a Route 66 de Chicago até Santa Monica. Era o tipo de viagem de férias que as pessoas faziam. Mas, ao mesmo tempo, a estrada é o lugar onde você tem mais chance de ser morto, ficar mutilado, gravemente ferido, ou ver outra pessoa morrer, ficar mutilada ou gravemente ferida. E, claro, estando numa banda em turnê, a maior parte da sua vida é ir de um show para o outro. Então estamos constantemente na estrada, seja aqui, seja no exterior, ou dentro de um avião, ou algo assim. É um estilo de vida caótico. E existe esse tema de prosperar dentro do caos e encontrar o seu lugar nele, que é basicamente sobre o que a faixa-título fala. Além disso, há várias histórias sobre acidentes horríveis, carros defeituosos que explodem e envenenamento por monóxido de carbono. Então havia toda uma enorme fonte de morte e destruição para explorar dentro desse tema.”

Hoje uma banda que se auto-produz, o vocalista contou as vantagens e dificuldades de trabalhar por conta própria, sem um produtor ao lado os guiando, embora ache que ter engenheiros de som ao lado ajude com uma visão “de fora”. Pontuou o como isso influenciou no processo que a banda adota desde o álbum “Horror”.
Matt Harvey: “Quando estávamos fazendo Horror, construímos o nosso próprio estúdio. E isso tem sido um processo de aprendizado e também de adaptação. Pouco depois disso, acho eu, o nosso baterista, Mike Hamilton, se mudou. Nós dois moramos na mesma região por anos. Então essa relação de trabalho mudou bastante, saindo de ensaiar algumas vezes por semana, ou trabalhar mais intensamente quando você está fazendo um disco, para basicamente só se encontrar para turnês e gravações. E a gente foi encontrando o nosso ritmo trabalhando à distância e também encontrando o nosso jeito de funcionar dentro do estúdio. Porque quando você se autoproduz, como nós fazemos, é uma coisa estranha. Você pode acabar sendo crítico demais consigo mesmo, mas também pode ser permissivo demais. É difícil manter a objetividade sem alguém ali dizendo “não, faz de novo” ou “não, ficou bom, para por aí”. Mas acho que todos nós estamos ficando mais confortáveis com o processo de fazer um disco que seja claro e poderoso, sem ser limpo e esterilizado. E a cada álbum, trabalhamos com engenheiros diferentes desde que construímos o nosso estúdio. Então ainda existe, pelo menos, um olhar externo entrando no processo. E, com sorte, são pessoas em quem confiamos o suficiente para nos avisar se a gente tiver feito uma merda muito grande. Precisa ter um adulto na sala, por assim dizer.”

A longevidade da atual formação é notória: já são oito anos sem mudanças de membros. Sobre esse longo período de estabilidade, Matt diz que o atribui, em especial, à maturidade.
Matt Harvey: “é uma combinação de química e maturidade. Não só maturidade no sentido de lidar uns com os outros, mas também de entender como isso vai funcionar financeiramente. Claro, a gente não está nadando em dinheiro nem nada disso. Mas somos profissionais o suficiente para que as pessoas saibam que, se você sair em turnê, não vai voltar para casa com dez dólares no bolso e ter que sair do seu apartamento, ou coisa do tipo. Então acabamos estabilizando o lado empresarial da banda a um ponto em que ele é, pelo menos, sustentável e administrável para todo mundo.
E também desenvolvemos muita confiança, tanto no lado criativo quanto em todos os outros aspectos, de forma que todos consigam caminhar mais ou menos na mesma direção. Assim, quando discordamos de alguma coisa, sabemos que não é algo pessoal nem malicioso. É mais no sentido de “ei, acho que isso pode ser uma ideia melhor”. E, na maioria das vezes, conseguimos conversar e definir um caminho a seguir. Nem sempre é o caminho certo. Mas também somos maduros o suficiente para dizer: “olha, tentamos isso e, na verdade, foi uma ideia estúpida. Você estava certo. Vamos fazer desse outro jeito”. Então é todo um processo de aprendizado de como trabalhar com pessoas. Uma banda é, ao mesmo tempo, parte unidade familiar, parte pequeno negócio e parte projeto artístico coletivo. Por isso, é complicado encontrar a química e a dinâmica certas. E cada banda vai ser diferente. Mas nessa formação, acho que todo mundo se gosta de verdade, gosta de estar junto, gosta do que estamos fazendo e está se divertindo. Acho que isso é o suficiente para nos manter seguindo em frente. E, nessa formação, você é quem escreve as músicas.


Apesar de admitir não ser um fã de deathcore, ele admite a importância do gênero. Segundo disse, muitos jovens têm seu primeiro contato com o metal extremo, pode ser uma porta de entrada do público para o death metal mais “oldschool”, e que muitos músicos do estilo o abordam falando que são fãs do Exhumed.
Matt: “Acho que, quer dizer, eu não conheço muitos caras da cena deathcore. Mas já encontrei alguns aqui e ali. E o que é estranho para mim é ouvir alguém do Suicide Silence ou do Whitechapel dizendo algo como “ah, eu adorava Exhumed”. Ou ouvir alguém falar tipo “Slaughter Cult me explodiu a cabeça quando eu estava no ensino médio”, o que é bizarro. Porque isso me faz sentir velho. Mas eu realmente acho que isso é um desdobramento da cena do death metal. Obviamente, não vem só do death metal. Mas acho que qualquer coisa que faça gente mais nova explorar música pesada é algo positivo. E também acho que, se você for realmente um ouvinte curioso, vai acabar seguindo caminhos diferentes. Talvez você comece pelo deathcore e depois se interesse por death metal, e isso vire mais uma estrada para explorar. É como comigo, quando eu estava crescendo: eu adorava Napalm Death e Carcass. Isso me levou ao Repulsion. Que me levou ao Master. Que me levou ao Siege, ao Deathstrike, ao Pentagram, e assim por diante. E isso também me levou a outras bandas desses caras, o que por sua vez me levou a outras coisas. Então acho que qualquer coisa que faça as pessoas explorarem ou se tornarem mais conscientes do death metal é positiva. E aí você tem bandas como o Amon Amarth, que, quer dizer, eu acho que eles são uma banda de death metal. Não sei como chamar de outra coisa. Obviamente, eles soam bem diferentes de nós. E estão tocando em lugares enormes, vendendo caminhões de merchandising, ou seja lá o que for. Mas eles estão levando Cannibal Corpse, Carcass e outras bandas para essas turnês. Então qualquer coisa que faça as pessoas tomarem conhecimento disso, eu acho que é algo positivo. E eu não sou fã de deathcore, mas também não sou hater. É tipo: “ei, se é isso que você sente, então é isso que você deve tocar”. Eu é que sou velho. Bem velho. Então, para mim, é tipo: “ah, tanto faz”. Eu estava bem sem isso. Mas essa música precisa evoluir e mudar para sobreviver. Porque, se ficar só gente como eu, velhos sentados no quarto com suas coleções de discos ouvindo a mesma coisa que escutam há 30 anos, isso vai morrer. Então qualquer coisa que mantenha isso em movimento e faça as pessoas explorarem música pesada me parece algo muito positivo.”

Matt detalhou como funciona o processo de composição das músicas. Ele se coloca como aquele que dá a palavra final, mas garante que todos têm espaço para dar suas ideias e opinar em todas faixas.
Matt Harvey: “Todo álbum meio que tem seus altos e baixos. Este álbum parece um pouco mais colaborativo. Acho que, de modo geral, eu sempre fui o principal compositor. Então, se tudo der errado, eu consigo criar material suficiente para várias bandas. Mas eu gosto muito das músicas que o Sebastian e o Ross escrevem. E, às vezes, foi quase como arrancar dentes para conseguir que eles escrevessem mais. Mas neste álbum fiquei muito empolgado com o fato de que os dois escreveram duas músicas cada um. Então eles fizeram quatro e eu fiz seis. E, com cada música, a gente meio que sentava junto, ouvia as demos e conversava sobre elas. Tipo: é assim que essa parte vai funcionar, ou acho que dá para fazer melhor. E fizemos a mesma coisa com as letras. O Ross e eu escrevemos uma boa quantidade de letras. Acho que ele escreveu quatro músicas no disco e eu escrevi seis. Mas todos nós editamos o trabalho uns dos outros. Todo mundo dá pitaco e todo mundo anota. E isso acabou virando uma situação em que eu, como sou um grande leitor de quadrinhos, tendo a fazer analogias com comida ou com HQs. Então, desculpa. Mas acaba ficando meio como se eu fosse o editor. Quando algo chega à minha mesa, posso fazer pequenas mudanças para que soe mais dentro daquele “estilo da casa” que a gente tem, porque existe um estilo bem definido. Mas são só correções pequenas, nada de reformas gigantes, porque esses caras são ótimos compositores e entendem muito bem o que a banda representa. Então eu deixo ali uma pequena impressão digital. E, com as minhas coisas, eu faço o caminho inverso e digo: “e aí, o que vocês acham? Isso funciona?”. Então é tudo bem colaborativo. E precisa ser assim, principalmente porque a gente não ensaia junto como a ideia tradicional de banda, que se reúne três vezes por semana numa sala e tal. A gente não tem isso. Então precisamos estruturar um tempo específico para fazer isso. Acaba sendo um pouco mais com cara de trabalho. Você pensa: “ok, temos que entrar no Google Meeting e sentar aqui para falar dessas coisas”, o que não é nada romântico. Mas funciona. E acho que, desde que todo mundo esteja incluído no processo, as pessoas se sentem melhor em relação às músicas, e elas acabam ficando melhores com a contribuição de todos. Sim, no fim das contas, não é tão diferente de um veículo de mídia. Todo mundo precisa passar por esse processo quando escreve.”

A situação política nos Estados Unidos, porém, foi o tópico mais polêmico. O Exhumed já havia gravado um disco criticando o consumismo americano mas, hoje, Matt, que é casado com uma imigrante, vê que sempre é possível piorar a situação, e detona o governo Donald Trump pelas ações do ICE (o departamento de imigração americano), em especial contra latinos.
Matt Harvey: “Minha esposa é imigrante. Ela é da Inglaterra. E é branca.
Então não estamos tão preocupados com a imigração batendo nas ruas. Mas, mesmo assim, viajar para fora e para dentro do país para ela já é um pouco delicado. E todo esse clima é péssimo. Mas eu sei que, em alguns mercados, Los Angeles sendo com certeza um deles, a presença do público em certos shows diminuiu porque pessoas sem documentação não querem correr o risco de ir a lugares que não sejam absolutamente necessários, tipo trabalho ou algo assim. Elas não querem sair. Porque por que arriscar a sua vida inteira, o seu sustento inteiro, para ir a um show? Quer dizer, eu amo metal. Mas se eu pensasse: “ah, você pode perder sua casa para ir a esse show”, eu provavelmente ficaria em casa. Então eu sei que isso teve um impacto. Acho que vai precisar acontecer algo realmente drástico para que mais pessoas percebam o quão precária é a situação. Seja alguém de uma banda muito conhecida sendo detido ou preso, seja toda essa besteira envolvendo a Groenlândia e coisas assim. Para mim, que trabalho muito na Europa, isso é uma parte enorme do meu sustento. E a ideia de que músicos americanos não vão mais poder simplesmente chegar lá e tocar legalmente é um problema gigantesco. Não é um problema para o Metallica. Não é um problema para o Five Finger Death Punch, ou seja lá quem for. Mas é um problema para toda banda de death metal de médio porte. Se começarem a existir mais restrições, vistos de trabalho e todo esse tipo de coisa, além do fato de que todo o tecido do nosso governo está sendo destruído e os Estados Unidos estão virando um país de terceiro mundo, ou, no máximo, uma potência regional mediana em vez de um líder global, deixando tudo isso de lado, no nível mais prático a cena vai ser afetada. Bandas europeias não vão conseguir ir aos Estados Unidos. Bandas americanas não vão conseguir fazer turnê na Europa. Até algumas coisas relacionadas às tarifas já afetaram bastante a capacidade das pessoas de produzir merchandising, porque todos aqueles patches estranhos e essas porcarias que a galera curte são feitos na China. Todo mundo sabe disso. A capacidade de encomendar discos do exterior, tudo isso está sendo impactado negativamente. E independentemente de como você se posiciona politicamente, o fato concreto é que isso está afetando negativamente o funcionamento básico da cena. Sem falar no fato de que as pessoas estão vivendo com medo. Sem falar no fato de que pessoas estão sendo presas na rua sem mandado, sem devido processo legal, sem nem mesmo terem seus direitos lidos, aquele “você tem o direito de permanecer em silêncio” e tudo mais. Por agentes em massa que não se identificam, não fornecem número de distintivo, não respondem a ninguém. Então, quer dizer, é uma situação incrivelmente ruim em todos os níveis. Mas até para o fã casual, ou mesmo para o fã hardcore de metal que não liga para política e acha que os dois lados são uma merda, o que até pode ser verdade, os efeitos negativos continuam se espalhando. E, se isso continuar, vão se tornar ainda piores. Para alguém como eu, que vive disso, a ideia de não conseguir uma permissão de trabalho, ou de ter que tirar vistos, pagar custos extras e honorários legais para tocar na América Latina ou na Europa, isso pode simplesmente inviabilizar tudo. Quer dizer, em um ano eu posso acabar de volta trabalhando numa fábrica, como antes, o que não é a maior tragédia do mundo. Não é tipo “meu Deus, estou morrendo”. Eu não fui “desaparecido” para uma prisão em El Salvador. Mas ainda assim é uma merda, é horrível. Então, mesmo que você não se importe com ninguém além de você mesmo, no fim das contas isso vai te afetar negativamente como fã de metal. E isso é global. Infelizmente, para o bem ou para o mal, o que acontece nos Estados Unidos se espalha para todo lugar. E é engraçado, porque quando fizemos aquele disco político alguns anos atrás, as preocupações que eu expressava agora parecem quase ingênuas e até simpáticas diante disso tudo. Eu pensava algo como: “bom, as corporações sequestraram o processo político, nunca vamos conseguir nada realmente bom e vamos simplesmente seguir em frente nesse sistema corporativo de merda”. Eu não achava que estaríamos a cinco anos do fascismo. Isso foi uma surpresa. Mas aqui estamos.”

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