No Tokio Marine Hall, banda revisita clássicos de Vivid, Time’s Up e Stain, entrega mais de duas horas de intensidade e reafirma sua relevância quatro décadas depois
Fotos por Leca Suzuki (@lecasuzukiphoto)
Celebrando quatro décadas de trajetória, o Living Colour voltou a São Paulo na última sexta-feira (27) com a turnê “The Best of 40 Years” e entregou no Tokio Marine Hall um espetáculo que foi além da nostalgia. Em pouco mais de duas horas, o quarteto revisitou sua fase mais emblemática com vigor técnico, peso, groove e discurso ainda atual.
Abertura: Madzilla aquece a casa
Escalado pela produtora Top Link Music, o Madzilla abriu a noite com um set enxuto e direto. A banda, formada em Las Vegas e com histórico recente de passagens pelo Brasil ao lado de nomes do metal, apresentou oito músicas em cerca de 40 minutos, incluindo faixas de trabalhos como A Deadly Threat (2024) e Asphixiating Cries (2021), além da recente “Angel Genocide”.
Com sonoridade voltada ao thrash metal melódico, o grupo liderado por David Cabezas apostou em riffs acelerados e vocais que alternam linhas melódicas e passagens mais agressivas. O frontman, comunicativo, arriscou interações em português e declarou seu apreço pelo público brasileiro. Embora o estilo dialogue pouco com a proposta multifacetada do Living Colour, o Madzilla cumpriu o papel de aquecer a plateia que aos poucos lotava a casa.
Living Colour – Um show imponente
Pontualmente às 22h, as luzes se apagaram ao som da “Marcha Imperial”, composta por John Williams, criando uma atmosfera solene antes da explosão inicial com “Leave It Alone”, faixa de Stain (1993). A escolha já indicava que o show não seria apenas uma sucessão de hits radiofônicos.
“Middle Man”, do clássico Vivid (1988), manteve o ritmo em alta, seguida pela vibrante releitura de “Memories Can’t Wait”, original do Talking Heads. A versão ganhou peso extra ao vivo e rapidamente estabeleceu a conexão entre banda e público.
A sequência com “Go Away” e “Ignorance Is Bliss” reforçou o lado mais denso e agressivo do grupo, evidenciando a força de Stain. Em contraste, “Funny Vibe” trouxe o balanço característico que ajudou a projetar o quarteto no fim dos anos 1980.
Antes de “Bi”, Corey Glover protagonizou um dos momentos mais espontâneos da noite ao cantar “Happy Birthday” para uma fã na grade. Logo depois, mergulhou na música com interpretação intensa, aproximando-se fisicamente da plateia nos primeiros versos.

A atmosfera mudou com “Hallelujah”, composição de Leonard Cohen. A leitura emotiva serviu como ponto de inflexão antes de “Open Letter (To a Landlord)”, cuja introdução vocal foi um dos momentos tecnicamente mais impressionantes da apresentação.
Na sequência, Will Calhoun assumiu o protagonismo com um solo de bateria que transitou entre técnica e experimentação. O destaque ficou para a inserção de um trecho de “Baianá”, do Barbatuques, evidenciando sua relação com ritmos brasileiros.
“This Is the Life” trouxe solo estendido de Vernon Reid, reafirmando sua reputação como um dos guitarristas mais inventivos do rock contemporâneo. Já “Pride” reacendeu o discurso político que sempre permeou a obra da banda.

O medley “White Lines (Don’t Do It)”, “Apache” e “The Message”, associados respectivamente a Melle Mel, Sugarhill Gang e Grandmaster Flash and the Furious Five funcionou como tributo às raízes do hip-hop nova-iorquino e destacou o baixo pulsante de Doug Wimbish, que alternou slaps, distorções e linhas cheias de groove.
A parte derradeira do show concentrou os momentos mais celebrados da carreira do grupo. “Glamour Boys” e “Love Rears Its Ugly Head” incendiaram o público, seguidas por “Type” e “Time’s Up”, que ampliaram o peso e a urgência do repertório noventista.
Quando os primeiros acordes de “Cult of Personality” ecoaram, o Tokio Marine Hall praticamente assumiu os vocais. O maior sucesso comercial da banda soou potente e atual, impulsionado pelo refrão cantado em uníssono.

O encerramento veio com “Solace of You”. Com o público puxando o coro final, a música selou a apresentação de forma emotiva. Diferentemente de outras datas da turnê, o cover de “Should I Stay or Should I Go”, do The Clash, não foi executado em São Paulo.
Com repertório centrado em Vivid (1988), Time’s Up (1990) e Stain (1993), o Living Colour mostrou que sua obra permanece atual não apenas pela qualidade musical, mas pela permanência dos temas que aborda, identidade, desigualdade, política e resistência.
Sem recorrer a material inédito, a banda entregou uma apresentação que reafirma seu status como uma das formações mais consistentes do rock. Quarenta anos depois, o Living Colour segue soando urgente, técnico e visceral, combinação rara que explica por que cada retorno ao Brasil se transforma em celebração.
Setlist do Living Colour – 27/02/2026 – Tokio Marine Hall
- Leave It Alone
- Middle Man
- Memories Can’t Wait (cover do Talking Heads)
- Go Away
- Ignorance Is Bliss
- Funny Vibe
- Bi
- Hallelujah (cover de Leonard Cohen)
- Open Letter (to a Landlord)
- Solo de bateria (com trecho de “Baianá”, do Barbatuques)
- This is the Life
- Pride
- White Lines (Don’t Don’t Do It) / Apache / The Message
- Glamour Boys
- Love Rears It’s Ugly Head
- Type
- Time’s Up
- Cult of Personality
- Solace of You

























