Entrevista por Daniel Agapito
Nome influente na cena do post-hardcore, o supergrupo chega às terras tupiniquins com um show ao lado do Fiddlehead no dia 22
Surgindo no momento em que o rock vivia seu último auge comercial, o Rival Schools nunca foi o tipo de banda que buscou ir atrás do som que todos estavam fazendo; muito menos se render aos clichês do mercado. Um verdadeiro “time das estrelas” do hardcore, contando com músicos que tocaram em bandas como Gorilla Biscuits, Judge, Youth of Today, Quicksand, e Iceburn, rapidamente se destacaram fazendo um som anos à frente do seu tempo. Em 2001, lançaram United by Faith, e após algumas breves turnês, silêncio.
Uma reunião alguns anos depois traria dois álbuns, Pedals (2011) e Found (2013), o segundo sendo uma coleção de músicas vazadas do que era para ser seu segundo disco. A história se repetiu, e após o lançamento do último LP, se separaram novamente. Para a felicidade dos fãs, não conseguiram ficar longe dos palcos, e depois da pandemia, se juntaram pela terceira vez, celebrando o aniversário de United. Durante esses mais de 25 anos, nunca vieram para o Brasil, mas isso vai mudar: trazido pela New Direction, o grupo invade o Fabrique Club no domingo pós carnaval.
Tivemos a chance de conversar brevemente com ninguém mais, ninguém menos que Walter Schreifels, vocalista, guitarrista e grande mente por trás do projeto. Respirando a cena alternativa há mais de 40 anos, conversamos sobre a história do Rival Schools, ele expôs suas opiniões a respeito da “nova geração” do hardcore, e é claro, conversamos sobre a turnê que vem aí, confira!
Vocês estarão fazendo sua estreia latino-americana no final deste mês, ao lado do Fiddlehead. Boa parte dos integrantes da banda já vieram ao Brasil, mas nunca juntos. Como estão as expectativas para a turnê?
Walter Schreifels: Tendo tocado na América do Sul antes, sempre nos divertimos muito, sempre fomos recebidos de maneira muito calorosa, e sempre que apareço aí me pedem para vir com o Rival Schools, então estou bastante animado!
Agora do outro lado, o que nós, fãs, podemos esperar da performance de vocês?
Walter: De verdade, não sei, estamos em ótima fase! Estamos tocando bem, nos divertindo muito, e desta vez estamos levando o Steve (Pedulla, guitarrista) do Thursday conosco, então vai ser bem legal! Esperem algo ótimo!
Em relação ao setlist, irão focar mais no primeiro álbum, ou veremos também algumas surpresas dos outros discos?
Walter: Nos últimos shows que fizemos, puxamos um pouco mais dos primeiros dois trabalhos, mas sempre tentamos incluir um pouco de tudo…
Você sabe bem, vários artistas internacionais falam muito bem dos fãs daqui – tendo feito diversos shows, o que acha da energia latinoamericana?
Walter: É incrível! Viajo o mundo, sei que você consegue fazer bons shows em qualquer canto, têm fãs bons em vários lugares, mas separo a América Latina de tudo isso. Vocês são os mais loucos, os mais dispostos a se divertir. Adoro ir para lá, não só porque é um lugar realmente muito legal, sempre gostei da experiência, mas os fãs são de outro nível.
Vocês vão para um show prontos para sempre aproveitar ao máximo. É interessante ver as “temperaturas” de reação diferentes pelo mundo, a América do Sul é certamente a mais calorosa. Acho que realmente há uma conexão mais profunda entre fã e artista por aí, o público é tão ligado na diversão. Parece que você está entrando em uma festa que já tá rolando. Em certos lugares, você tem que trabalhar duro para fazer a galera entrar nesse estado onde estão em transe. Por aí, as pessoas estão lá desde os primeiros acordes. Não sei como acontece, mas como músico, amo isso!
Falando em começar a festa, as bandas de abertura para o show de São Paulo foram anunciadas recentemente – Zander e Capote – chegou a ouvir alguma delas?
Walter: Ainda não consegui parar e ouvi-las com atenção, mas sei que são bandas conhecidas, conceituadas, o que me anima mais ainda para o show!
Vocês virão para cá ao lado do Fiddlehead, um dos grandes nomes da nova geração da cena – como é o relacionamento entre vocês?
Walter: Ah, amo aqueles caras! Fizemos um final de semana de shows com eles há um tempinho, são fodas para caralho! A música é boa, eles são gente fina e os shows são para lá de bons. Acho que juntos somos uma boa combinação!
Continuando na linha da nova geração do hardcore, o estilo vive uma ótima fase nos últimos anos, não só com bandas como o Fiddlehead, que pendem mais ao post-hardcore, mas também com grupos como Knocked Loose e Turnstile, que completamente ‘furaram a bolha’. Como veterano da cena, como enxerga a ‘acessibilização’ do som e da cultura?
Walter: Acho maravilhoso! O que é legal da cena do hardcore é que ela é uma verdadeira comunidade, é algo criado pelas pessoas que realmente amam, diferente de outras vertentes musicais. Não é só sobre o estilo das músicas, como também há um lado ético bem forte, a ver com a consciência e os sistemas da comunidade, que passam por fora dos interesses corporativos que sempre nos disseram o que gostar. O hardcore vem 100% do chão, feito do zero. Estou inserido no meio há muito tempo, e ver que está mais popular é incrível, mostra que as ideias estavam certas desde o começo.
Com isso, o debate a respeito do “gatekeeping” tem se intensificado bastante nos últimos anos, com brigas intermináveis sobre o que é “verdadeiro” e o que não é. Ao seu ver, isso ajuda ou afeta a cena?
Walter: Se algo é bom, as pessoas descobrem, as pessoas vão chegar. Não tem muito o que fazer quanto a isso. Você até pode falar “ah, tal banda não é legal porque são populares”, mas não é assim. Se a banda é boa e é ligada à cena – antes de me interessar ao hardcore, gostava de outras bandas, mas com o HxC, tem toda a questão filosófica e cultural, que expandiu minha visão sobre várias coisas, mudou a maneira em que vejo o mundo. Vai além da música.
Se as pessoas entram no hardcore porque está popular, talvez também expanda os pensamentos deles. Mesmo assim, se for algo que as pessoas se interessam só por “moda”, esses aí eventualmente irão desaparecer, então não é como se fosse um grande problema. Eu, pessoalmente, não acredito que valha despender muita energia para decidir quem pode gostar do que eu também gosto, não me importo, na real.
Este ano, 2026, marca o 25º aniversário do United by Fate, um disco inegavelmente influente, e que ainda soa muito atual. Quando estavam gravando, imaginavam que seria algo tão grande quanto é hoje? Acha que tem algo específico que dá a ele sua atemporalidade?
Walter: Primeiramente, muito obrigado! Com todos os discos que gravo, sempre tento fazer o melhor trabalho possível, dadas as pessoas que trabalham comigo. Acho que é muito bom as pessoas acharem que ainda soa atual, que seja algo que ainda faça sentido, algo que ressoa com pessoas que nem eram nascidas quando ele foi lançado. Isso para mim é mágico! Sou muito grato ao “eu” do passado por ter feito parte disso, tentado fazer algo bom (risos). É algo mágico, mesmo, que não teria como planejar, preparar.
Também, foi um álbum lançado em um período de transição do rock, onde o nu metal já não estava no seu auge, o “butt rock” (pós-grunge) já dava sinais de saturação – o United é completamente diferente de tudo comercial. Diria que o “clima” geral influenciou o resultado final?
Walter: Éramos “forasteiros” no terreno da música das grandes gravadoras. Estávamos vindo de um cenário hardcore, era estranho, músicos como nós, fazendo um disco daqueles. De certa forma, isso dificultou a nossa divulgação, não havia uma cena para o que estávamos fazendo. Acho que o tempo provou o que estávamos tentando fazer, ele não soa datado, realmente tínhamos uma visão, tinha qualidade.
De verdade, só estávamos tentando fazer o melhor disco possível. Queríamos algo que fosse musicalmente interessante, legal, mas também algo que qualquer um pudesse escutar. Estávamos falando do “gatekeeping”, né, queríamos que as pessoas pudessem se interessar pelo som, mas queríamos fazer algo que fosse legal, que faríamos de qualquer forma.
Acho que esse é o mesmo caso de alguns discos que você gravou com o Quicksand, que também soam completamente à frente do seu tempo…
Walter: Então acho que estou no tempo errado mesmo (risos). Estou percebendo isso com os anos. Acho que de onde viemos, o cenário do hardcore nova-iorquino, não estávamos “postos” como várias das outras bandas que estavam sendo lançadas por gravadoras daquelas (United by Fate foi lançado pela Island Records). É um som difícil de colocar em caixinhas, difícil de rotular.
Hoje em dia, com a internet, com a música dominada por playlists e algoritmos, parece que o cenário do mainstream está, mais do que nunca, dominado por estas bandas fáceis de rotular… estando na ativa há tanto tempo, quais diria que foram as maiores mudanças no cenário musical?
Walter: Do lado bom, muito do controle agora está na mão dos artistas, quando se diz respeito à distribuição de suas próprias músicas, no quesito de poder dizer o que você quer dizer e jogar para o mundo. O lado ruim disso é que tem uma quantidade insana de música. São tantos grupos acontecendo agora, tantas bandas que você não descobriu. Por um lado, o streaming é bom porque tem tanta música, mas do outro lado é ruim porque tem tanta música, então acaba que muita coisa se perde.
Agora, também é muito mais difícil viver de tudo isso, você precisa de um outro nível de dedicação para fazer a conta fechar. Mesmo assim, acho que o streaming mesmo foi a maior mudança. Eu gosto disso, gosto da liberdade e da facilidade com a qual você pode fazer as coisas hoje. Quando o Rival Schools estava lançando discos, era sobre lidar com a máquina corporativa, tentar navegar o sistema deles para fazer música e fazer o que você gosta. Mesmo conseguindo fazer o que você gosta, havia um forte elemento corporativo. Agora, não precisamos mais pensar tanto nisso. São partes boas e coisas ruins.
Dá para ser mais “nichado” hoje em dia, sem ter que apelar aos interesses em massa…
Walter: É isso! Acho que é até mais difícil apelar para esses públicos maiores, para mim, é difícil até saber onde está o interesse deste grande público. Algumas das bandas que você mencionou que estavam indo bem, são bandas que trabalharam duro e estão fazendo seu som, criaram seu próprio caminho, não só pela música, mas também pela determinação.
Quando era menor, quando estava começando, com os selos independentes de hardcore, financiados por adolescentes, um sistema completamente independente, onde as maiores prensagens eram de mil discos, divulgação era em fanzines… acho muito interessante que hoje em dia, pode ter uma banda com dezenas de milhões de plays no Spotify, mas que você não conheceria nem se fossem seus vizinhos. Tendo passado por tudo, vejo coisas que gosto, mas também às vezes bate uma nostalgia do passado também.
Nesse mesmo raciocínio, acho que poderia falar da MTV, visto não só que o canal fechou, mas também que ambos singles do primeiro álbum (“Good Things” e “Used for Glue”) tiveram boa rotação em sua programação – qual era a verdadeira influência ali?
Walter: De um jeito bem legal, as pessoas olhavam para a MTV como forma de firmar a história do que era popular. As pessoas seguiam aquela história juntos, enquanto hoje em dia não temos uma história só. Como você disse, é tudo muito nichado, então é mais difícil fazer as pessoas se juntarem em uma coisa só.
Não sou jovem, então tenho certeza que tem algum jeito que a galera nova está achando essa história, pode ser que não seja tanto no rock. Acho que o legal da MTV era isso, não tinha como ver como a banda se parecia, a exposição que a banda ganhava não tinha igual, animava muito. O lado ruim era que tudo era praticamente um comercial, sabe? Parecia que você realmente seguia uma história cultural, algo que não tem hoje em dia, porque tem tanta coisa acontecendo, então não existe mais uma linha reta.
Agora, para fechar, o espaço é todo seu, pode deixar uma última mensagem para seus fãs latino-americanos, para os leitores do Sonoridade Underground!
Walter: Sim! Estou muito animado para tocar em São Paulo, amo aquela cidade, tenho tantos amigos ótimos! Quero muito tocar em Santiago e em Buenos Aires também, cidades incríveis! Vejo vocês lá!

SERVIÇO
Fiddlehead + Rival Schools em São Paulo
Data: Domingo, 22 de fevereiro de 2026
Horário: 16h (abertura da casa)
Local: Fabrique Club
Endereço: rua Barra Funda, 1071, Barra Funda – São Paulo/SP
Ingresso: R$ 200,00 (Meia Entrada / Solidária / Estudante – último lote), R$ 400,00 (Inteira – último lote)
Venda online: fastix.com.br/events/fiddlehead-rival-schools-em-sao-paulo
Mais informações:
@tedesco.com.midia
@ndp.live
@agenciapowerline

