Crédito: Gabriel Barretto
Mantracaru, segundo álbum do artista sergipano Luno, começa com um verso de boas-vindas, “vou abrir a porta”, e termina num mantra. Entre um ponto e outro, Luno Torres conduz o ouvinte por oito paisagens em que a psicodelia brasileira se encontra com o rock progressivo, o jazz, a música nordestina e arranjos orquestrais. Esse é o percurso do registro que chega às plataformas digitais em 30 de setembro.
Ouça aqui: tratore.ffm.to/mantracaru
Mais do que reunir gêneros, Luno constrói uma narrativa sobre transformação, autonomia, fragilidade e resistência. No centro dela está a tentativa de permanecer sensível diante das contradições do mundo.
A produção é de Luno ao lado de Léo Airplane na guitarra, parceiro de longa data, e Gabriel Perninha, do The Baggios, na bateria.
Entre o cotidiano e o mítico
Mantracaru foi concebido como uma travessia musical e poética entre o cotidiano e o mítico. O título funde duas ideias. O mantra traz repetição, introspecção e transformação. O mandacaru, por sua vez, carrega a resistência, a permanência e o imaginário nordestino.
A sequência das faixas desenha esse caminho. “Aos Amigos, Um Abraço” abre o disco como um convite para entrar no universo de Luno. A partir dali, o álbum passa por felicidade, esperança, fantasia, estranhamento, crítica social, mito e espiritualidade. A chegada é a faixa-título, que encerra o percurso de forma mântrica e transcendental, evocando luz, ancestralidade e integração entre corpo, mente e alma.
A capa traduz essa passagem. Luno aparece diante de um portão cercado por cactos, num cenário noturno que aproxima sertão, mistério e psicodelia.
“Acho que o ouvinte vai perceber que o Mantracaru foi pensado como uma travessia, e não apenas como uma coleção de músicas”, afirma.
Luz e sombra
Musicalmente, o álbum atravessa psicodelia brasileira, rock progressivo, indie rock, jazz, referências da música nordestina, pop sessentista, arranjos orquestrais e experimentação sonora. Piano acústico e elétrico, mellotron, sintetizadores, baixo, guitarras, bateria, percussões, efeitos e sonoplastias convivem com cordas e elementos sinfônicos.
Os dois singles apresentaram os extremos desse universo. “Colorida Barca”, lançada em agosto, é a face luminosa do disco: uma valsa psicodélica com pegada de rock rural, atravessada por ruídos de navegação e vozes de passageiros.
“Seres de Pano”, de setembro, mergulhou no lado sombrio e psicológico. A faixa cresce do piano acústico até uma progressão riffada, em atmosfera próxima às trilhas de Danny Elfman para os filmes de Tim Burton e à tensão do Radiohead.
“Mantracaru é um disco de contrastes fabulosos”, define Luno.
O restante do repertório amplia esse leque. “Epopéia de uma Vida Feliz” busca nos Beatles e nos Beach Boys a construção melódica e vocal. “O Bando do Café da Manhã” tem o caráter fantasioso e psicodélico de Syd Barrett, do Pink Floyd inicial, dos Mutantes e do The Who. Em outros momentos surgem elementos de afrobeat, garage rock dos anos 1960 e rock progressivo.
Em “Colorida Barca” e “Seres de Pano”, os arranjos orquestrais do maestro James Bertisch foram executados por músicos da Orquestra Sinfônica de Sergipe. O próprio maestro gravou tímpano e gongo sinfônico no Teatro Tobias Barreto, em Aracaju. Em vez de servir de ornamento, cordas e percussão sinfônica fazem parte da narrativa e da atmosfera das canções.
Por trás de tudo está a linhagem da psicodelia brasileira dos anos 1970, de A Barca do Sol, O Terço, Os Mutantes, Sá, Rodrix & Guarabyra, Ednardo e Tetê Espíndola. Luno a aproxima do jazz, do rock progressivo, das sonoridades nordestinas e da música indiana.
Canções de juventude
Parte de Mantracaru esperou anos para existir. “Mulher-Onça”, “O Bando do Café da Manhã”, “Seres de Pano” e “Colorida Barca” foram compostas na juventude do artista. O lado mais fantasioso do disco reflete a criatividade de um Luno jovem e imaginativo, na aurora de seu despertar artístico.
“Colorida Barca” tem a história mais longa. O primeiro esboço nasceu em parceria com o amigo de infância Diego Bezerra e tinha apenas dois versos. A música ficou inacabada até 2017, quando Luno criou a ponte e a melodia do refrão. Só durante o processo de Mantracaru os versos restantes surgiram e a composição encontrou sua forma definitiva.
Mesmo assim, faltava algo no arranjo. Luno testou sanfona, mellotron e viola de 12 cordas, sem que nenhum dos instrumentos entregasse o que a música pedia. A virada veio quando James Bertisch aceitou escrever os arranjos de cordas. Violinos, viola e violoncelo finalmente preencheram aquele espaço. “Foram os geniais arranjos de cordas que entregaram a beleza que a música precisava”, conta Luno.
Psicodelia brasileira de identidade própria
Baixista, violonista, vocalista e compositor, Luno Torres vem da Plástico Lunar, referência do rock psicodélico brasileiro, e integra A Banda dos Corações Partidos e o Madame Javali. Com esses projetos, passou por festivais como Abril Pro Rock (PE), Virada Cultural de São Paulo, Psicodália (SC), Bananada (GO), DoSol (RN) e Festival Mundo (PB). Em 2021, lançou seu primeiro disco solo, Homo Pacificus.
Mantracaru expande essa linguagem. Permanecem a dimensão filosófica e o interesse pelo comportamento humano. O novo trabalho, porém, se aproxima ainda mais do imaginário nordestino, da ancestralidade, do misticismo e dos regionalismos, com novas possibilidades de arranjo e produção. Para Luno, não se trata de ruptura, e sim de uma evolução do mesmo universo, agora mais amplo e conectado às suas raízes.
O disco também ultrapassa a ideia convencional de “rock”. O que Luno constrói é uma música psicodélica brasileira de identidade própria, onde rock progressivo, jazz, Nordeste, espiritualidade, crítica e experimentação coexistem.
Mantracaru procura consolidar essa identidade sem cristalizá-la: olha para a trajetória construída, mas aponta principalmente para o que o artista pretende desenvolver daqui para frente.

Ficha técnica | Mantracaru
Lançamento: 30 de setembro de 2026
Composições, letras e músicas: Luno Torres
Produção musical: Léo Airplane e Luno Torres
Produção executiva: Mirna Silveira e Luno Torres
Arranjos de cordas: maestro James Bertisch
Mixagem e masterização: Léo Airplane
Arte da capa: Gabriel Barretto
Comunicação: Alanna Molina e Tedesco Mídia
Este é um projeto realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo, por meio do Ministério da Cultura, Governo Federal, Governo do Estado de Sergipe e Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe (FUNCAP/SE)
Músicos
Luno Torres: voz e baixo
Léo Airplane: piano acústico, sintetizador, teclado, guitarra, violão e efeitos sonoros
James Bertisch: tímpano e tam-tam/gongo sinfônico
Gabriel Perninha: bateria
Thiago Salvino: violoncelo
Fabíola Fontele: viola
Junior Vanzella: violino
Francisco Júnior: violino
