Com quatro faixas e participação de Dani Buarque, trabalho sai via Algohits e inaugura a fase integralmente em português da banda
Crédito: Rare Media
“Ser anti-raso é ser profundo ao ponto de não ser tão fácil de controlar”, resume a vocalista, guitarrista e compositora Duda Maiolini. A frase conduz Anti-Raso, EP que a Horney acaba de lançar com distribuição digital da Algohits. Nascida em Joinville, Santa Catarina, e hoje radicada em São Paulo, a banda reúne quatro músicas em sua primeira apresentação completa de uma identidade artística construída em português.
Ouça o EP aqui: algohits.com/horney-anti-raso.
“Off!”, “Quebra-Cabeça”, “Mergulhar” e “Romântica” partem de situações diferentes, mas avançam sobre a mesma questão: o que acontece quando a pressa, a hiperconectividade e o acesso imediato ao prazer reduzem a disposição para pensar, criar e construir relações? Para Duda, a superficialidade produz um modo de vida fácil de conduzir e manipular.
“Anti-Raso é literalmente o que a gente não é, o que a gente debocha e aquilo contra o qual luta: a superficialidade. Mergulhar mais fundo nos desejos faz com que você entenda melhor os seus porquês e também os dos outros. Assim, fica mais capacitado para formular opiniões, pensar e existir como indivíduo, em vez de ser apenas um dado que responde a comandos. Essa é a base do rock para mim: ser contra o sistema”, afirma.
O conceito também orienta a produção. A Horney descreve a sonoridade do EP pelo contraste entre água e eletricidade. De um lado estão guitarras distorcidas, baixo marcado, bateria explosiva e passagens de tensão. Do outro, mudanças de dinâmica, trechos contemplativos e a vulnerabilidade das letras. O rock alternativo dos anos 1990 e 2000 encontra elementos do pop eletrônico em músicas que evitam estruturas excessivamente previsíveis.
Quatro maneiras de sair da superfície
Primeiro single em português da Horney, lançado no fim de 2025, “Off!” examina como as relações sociais e a conexão permanente atravessam a saúde física e mental. A letra mira um sistema capaz de converter cansaço, ansiedade e sensação de insuficiência em consumo, enquanto vende produtividade como ideal. Desligar-se, nesse contexto, significa recuperar o próprio tempo, o ócio criativo e alguma autonomia sobre a vida.
“Quebra-Cabeça”, com Dani Buarque, da The Mönic, ocupa o centro emocional do ep. A música confronta a imagem moldada por telas, padrões estéticos e modelos inalcançáveis. Em sua simbologia, o espelho devolve um olhar condicionado pelas expectativas externas; a água corrente oferece um reflexo em movimento, ligado à natureza e à possibilidade de reencontro com a própria essência.
“A ideia é dar voz a sentimentos e questões dos quais muitas vezes a gente prefere fugir. O herói que esperamos está preso em nosso próprio reflexo. Somos reféns dos nossos medos e da escolha de escapar, em vez de encarar que nós somos aqueles que podem e devem nos salvar”, explica Duda.
A vocalista relaciona a canção à figura de Narciso, mas desloca a imagem mitológica da contemplação ilusória para um embate mais incômodo com a identidade. A entrada de Dani Buarque amplia esse percurso individual e lembra que nenhum processo se sustenta sozinho. A participação, segundo Duda, acrescenta a força do coletivo a uma faixa inicialmente concentrada no confronto de cada pessoa consigo mesma.
Em “Mergulhar”, a banda leva o conceito do ep para o amor. A canção trata da coragem de entrar no desconhecido do outro, mesmo sem garantia de permanência. A experiência vale pelo que transforma em quem a vive, e o possível fracasso de uma relação não apaga aquilo que foi construído.
“Romântica” fecha o trabalho por outro caminho. Definida por Duda como o “alívio cômico” de Anti-Raso, a faixa usa o verso “Ai de mim que sou romântica no século da putaria” para ironizar aplicativos de relacionamento e a cultura do descarte. Pessoas aparecem como produtos de um catálogo aparentemente infinito, trocadas antes que qualquer vínculo adquira significado.
“Quero ser romântica no século da putaria. Vamos nos amar e construir histórias para que a gente não se arrependa de não ter vivido. Talvez a gente se arrependa apenas de alguns detalhes, de algumas vírgulas ou de alguns parênteses”, diz a cantora.
Entre o rock alternativo e o pop eletrônico
A identidade musical da Horney nasce do encontro entre o rock alternativo dos anos 1990 e 2000 e o pop eletrônico contemporâneo. Guitarras pesadas, bateria explosiva e mudanças bruscas de intensidade dividem espaço com melodias diretas, texturas eletrônicas e uma produção atenta às camadas vocais. A banda leva essa combinação para letras em português sobre intimidade, ansiedade, desejo e relações humanas.
Entre as referências citadas por Duda estão Nirvana, Linkin Park, Foo Fighters, Queens of the Stone Age e The Strokes, além de Charli Xcx e Billie Eilish no campo do pop. Rita Lee e Os Mutantes aparecem como referências brasileiras de liberdade criativa, enquanto Beatles e Paul McCartney integram o repertório melódico da banda.
“Eu diria que é como se Nirvana e Linkin Park tivessem um bebê”, resume Duda ao falar sobre a forma como a Horney transita entre peso, vulnerabilidade e apelo melódico.
O encontro com Criolo
Anti-Raso foi captado e produzido por Fernando Sanches no Estúdio El Rocha, em São Paulo. As quatro faixas têm composição de Duda Maiolini e Rafael Bello, com João Duarte no baixo. Ítalo Nonato assina a mixagem e a masterização.
Uma das lembranças das sessões ocorreu durante a gravação de “Quebra-Cabeça”. Segundo Duda, Criolo, Rael e Mano Brown ensaiavam no estúdio naquele dia. Criolo entrou na sala para conversar com Fernando Sanches, perguntou o que estava sendo gravado e ouviu a música por sugestão do produtor.
Duda conta que o rapper reconheceu uma identidade própria na faixa, conversou sobre arranjos vocais e rock brasileiro e incentivou a Horney a preservar aquela essência. Antes de sair, chamou um fotógrafo que acompanhava o ensaio com uma câmera analógica para registrar o encontro. A ideia era revelar e entregar a imagem quando eles se encontrassem novamente, no futuro, com a trajetória da banda já mais conhecida. Duda está no aguardo: “quem sabe muito em breve!”.
De Joinville a São Paulo
A Horney surgiu em Joinville em 2018 e consolidou sua mudança para São Paulo em 2025. Hoje, a formação reúne Duda Maiolini na voz e na guitarra, Rafael Bello na bateria, Duda Freitas na guitarra e Gabriel Santolin no baixo.
E em meio aos preparativos e lançamento do EP, a banda já pensa no disco cheio. O próximo material será o primeiro desenvolvido pelos quatro músicos desde o início do processo criativo, revela Duda.
Sem título ou data divulgados, o futuro álbum deverá aprofundar questões presentes em Anti-Raso, entre elas identidade, desejos, relações humanas e as máscaras construídas para circular em sociedade.
FICHA TÉCNICA
Captação e gravação: Fernando Sanches
Mix/Master: Ítalo Nonato
Voz/Guitarra/Violões/Composição: Duda Maiolini
Bateria/Composição: Rafael Bello
Baixo: João Duarte
Arte de capa: Gustavo Zanqueti
Selo e Distribuição ℗ 2026 Algohits



