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Conhecida como uma das primeiras drag queens roqueiras, Naja, interpretada Nylo Bimbati, lança dia 02 de março o clipe para o single “O emo tá de volta”. Com vários Easter Eggs do mundo emo e drag, entre eles homenagens para importantes ícones deste movimento como Avril Lavigne e My Chemical Romance, além de referências às drags Pabllo Vittar, Glória Groove, Lia Clark e Adore Delano. O vídeo conta com a direção de Rafael Colt e Reinaldo Montalvão (Natty), com cenas gravadas no centro de São Paulo, como a região da Galeria do Rock.

O que fez Naja optar por lançar uma primeira canção sobre movimento Emo, foi causar uma sensação de nostalgia:  “A minha ideia é falar sobre a vida adulta do jovem que curtia rock,  revivendo sensações com letras honestas que falam de todo o drama que somente um amor de verdade e a vida adulta podem proporcionar”, explica Naja.

Naja ficou conhecida por fazer covers de bandas como: CPM22, Charlie Brown Jr e Oasis. Mas para a drag queen fazer covers ou lip sync não era o suficiente, por conta do seu gosto pela escrita, sentia falta de ter uma música mais autoral. Foi observando a volta de lançamentos musicais de bandas como Green Day, My Chemical Romance, Simple Plan e Fresno, artistas de rock considerados emos, que teve a ideia de compor single o “Emo tá de volta”, com lançamento previsto para o dia 27 de janeiro nas plataformas de streaming. “Eu queria que minha primeira música com drag fizesse as pessoas lembrarem de algo, que tivesse um significado maior”, explica. Naja já está produzindo um EP seguindo o estilo roqueiro de seu primeiro single, com músicas autorais.

Instagram: @najawhite 

YouTube: Naja White

Nos últimos dias através das redes sociais tivemos conhecimento de uma artista drag que estreava um clipe com um título que os rockeiros mais conservadores irão torcer o nariz “O Emo Tá De Volta” de Naja White. E nada melhor do que ela mesma pra falar do seu trabalho.

O André Fagundes conversou com a Naja sobre o novo trabalho dela, confira a entrevista completa:

Sonoridade Underground: Antes de mais nada, por favor, se apresente, fale um pouco de você e do seu projeto.


Naja White: Olá, pessoal! Fico muito feliz pelo convite.
Sou a Naja White, drag queen há seis anos na cena paulistana, interpretada por Nylo Bimbati (29).
Quando comecei a me montar, fui motivada pelo reality Rupaul’s Drag Race, que me fez entender a arte drag e desconstruir vários preconceitos em mim, mesmo eu já sendo um jovem gay assumido, que frequentava a cena LGBTQIA+.
No começo, eu não sabia muito bem o que poderia fazer, além de ser hostess nas festas que me contratavam.  Eu não sou uma boa dançarina, não sei todas as letras icônicas pra oferecer um ótimo lipsync (sincronização de lábios com a música – algo muito feito em shows de drag), então eu me sentia uma drag sem talento. Foi então que, há dois anos, decidi abraçar o canto de vez.
Eu nasci e cresci em Leme (SP), num berço evangélico. Logo na infância, era envolvido com a parte do louvor da igreja, então quando em 2009, decidi vir pra São Paulo para fazer faculdade, acabei me afastando do canto, de toda religiosidade e culpa cristã que me assolavam por me entender gay.
Porém, ao longo dos anos, eu sentia que estava desperdiçando um talento e deixando de fazer algo que me completava. Então, criei coragem e decidi que a Naja poderia cantar!
Foi quando comecei a me apresentar ao vivo, fazendo covers de CPM22, Charlie Brown Jr, Oasis, etc. Até que veio a ideia de me lançar oficialmente no mercado fonográfico.

S.U: Como surgiu a ideia do clipe “O Emo Tá De Volta” e porquê decidiu fazê-lo?


N.W: Em 2019, eu estava preparando um show de voz e piano com o pianista Luiz Viola, o qual me incentivou a colocar canções autorais no show. Como eu já escrevia, tinham várias prontas e que entraram no setlist. Porém, meses antes do show, me questionei se já não seria válido produzir e lançar algo de modo profissional, a fim de que o show fosse um novo passo na minha carreira drag, que trouxesse algo de novo – como um single.
Foi então que vi que nenhuma das músicas que estávamos fazendo seriam uma boa apresentação da Naja para o grande público, musicalmente falando.
Então comecei a ver o que estava acontecendo ao meu redor… MxPx havia lançado um álbum, Fresno e  Blink 182 também, Green Day havia anunciado o seu retorno, assim como My Chemical Romance, entre outras bandas que eu adorava curtir na minha adolescência (e ouço até hoje).
A Naja é inspirada nas garotas adolescentes da minha escola, que por vezes usavam camisetas de banda e tênis All Star. Comecei a entender que me apresentar com uma música nessa pegada, relembrar o EMO que tanto me fez feliz naquela época, poderia ser um ótimo cartão de visitas pra dar esses primeiros passos na música.
Então sentei pra compor, consegui criar uma letra que explicava de modo simples e divertido como era ser emo na minha época e incluí essa frase “até o EMO tá de volta, mas a gente não tá!” – quando cantei a primeira vez, tive certeza que era essa música de estreia da Naja.
O clipe foi gravado em sua maior parte na minha casa. Tem um making of no meu canal do Youtube onde conto maiores curiosidades. Mas a intenção era que houvesse uma ligação entre o mundo drag atual e o mundo do rock, com as minhas referências e inspirações.
No quarto é visível as referências de Nirvana, Blink 182, Linkin Park, assim como Pabllo Vittar, Glória Groove e Adore Delano.
Uni o máximo de itens possíveis que pudessem ambientalizar o clipe e tocar de forma nostálgica em quem viveu essa fase do rock nos anos 2000. Há também referências de Avril Lavigne e Simple Plan.

S.U: Quais são suas influências musicais e também as referências drag que você trouxe para a Naja White?


N.W: Por mais que pensem que eu me inspirei na Adore Delano, que inclusive amo, minha maior paixão drag é a Raja Gemini, da terceira temporada de Rupaul’s Drag Race.
Mas amo o que a Adore faz, e claro, me encoraja e me inspira também. Sharon Needles também sempre me encantou, mas eu não sigo essa linha tão gótica e sanguinária.
Estou mais pra uma versão drag emo adolescente, que pode ser engraçada, mas também falar sério em alguns momentos. Que pode cantar músicas divertidas, como também outras com letras profundas e que mexem com nossos sentimentos, (aguardem rs).
Na música, eu ouço de tudo. De Lady Gaga, Madonna, Britney à bandas como Linkin Park, Mudvayne, Papa Roach , Blink 182 e claro, rock nacional, Pitty, Cpm 22, Fresno, Hateen (que me inspira muito nesse projeto de emo revival).
A princípio, o que mais tem me inspirado é essa mistura do hardcore com o que alguns chamam de “pop punk”. Eu realmente não me importo com esses títulos, só quero fazer um som que faça sentido com o que eu tenho para dizer nesse momento.

S.U: O Emo, ou pelo menos a ideia midiática do que se chamou de “emocore” nos anos 2000, foi algo que trouxe muito preconceito com as bandas desse circuito como Fresno, Nx Zero entre outras. Acha que fazer um som com essa pegada fará as pessoas terem preconceito com o seu trabalho hoje em 2020?


N.W: Sim, infelizmente. Os rockeiros mais conservadores queriam anular o EMO como rock e houve mesmo muito preconceito e homofobia nos anos 2000, mas não dá para negar que foi esse movimento que manteve uma galera conectada ao rock, pois não se identificava com a postura machista e exclusivista que os conservadores mantinham como orgulho.
Para mim, é muito mais inteligente entender que música é cultura. Quanto mais cultura eu consumo, mais inteligente fico. Conseguir pelo menos respeitar a forma como o outro se expressa é o mínimo que podemos fazer para viver em uma sociedade melhor.
Como membro da comunidade LGBTQIA+ e sendo uma drag queen, obviamente o preconceito dá às caras de vez em quando. Há pessoas que comentam sobre meu som, sem sequer ter ouvido e reagem com risadas só pelo título das matérias.
Mas eu acho que a representatividade é algo muito importante. Com outras palavras, estou dizendo que o rock, assim como todos os estilos musicais, são para quem quiser e vier.
Vai ter drag no rock, já temos drag nas paradas do mundo Pop e isso só acrescenta pra que o mundo seja cada vez mais um lugar de respeito e acolhimento, alguns querendo ou não.
Enfrentei o bullying e preconceito a minha vida inteira. A Naja é para ser escudo e voz de quem não tem forças para se defender. Ao me lançar como drag queen cantora, estava ciente de que iria enfrentar o conservadorismo.

S.U: Como está sendo a recepção do público ao seu trabalho? Acha que seu público irá se limitar apenas à comunidade LGBTQI+?

N.W: A princípio, eu pensei que apenas a comunidade LGBTQIA+ fosse me apoiar, mas fui positivamente surpreendida com muitos héteros me apoiando, me defendendo em grupos do Facebook e inclusive me marcando nos stories, ouvindo minha música com a família e amigos.
Fico muito feliz em ver que a música pode quebrar as barreiras do preconceito ou até mesmo das diferenças. Estou radiante com todos os feedbacks que tenho recebido e isso me encoraja demais! Não vejo a hora de reunir toda essa galera em um ”showzaço”.

S.U: Para pessoas de mente fechada e ideias conservadoras dentro do rock, qual a mensagem que você tem para elas?


N.W: Eu entendo que o rock teve anos memoráveis e jamais devemos deixar essas histórias morrerem. Porém, acho que estar aberto ao que é novo e diferente, pode nos agregar demais como pessoas. E tudo bem não gostar de um estilo ou artista, mas anular o esforço, a inspiração e o trabalho de uma pessoa só porque você não gosta, é pra lá de imaturo e só demonstra insegurança. O bom e velho rock não vai morrer! São as maiores inspirações para muita gente, então não há motivos pra existir um incômodo com a existência de outras vertentes do rock.
Quanto à homofobia e preconceito contra LGBTQIA+, seja você rockeiro, pagodeiro, funkeiro, sertanejo, é uma questão de respeito. Todos merecem ser respeitados em suas individualidades, inclusive, sabemos que muitas estrelas do rock eram gays ou bissexuais, o que torna até incoerente ser rockeiro e preconceituoso ao mesmo tempo.
Minha melhor dica é: melhorem.

S.U: Em tempos de quarentena e não representatividade presidencial, o que acha interessante para nos indicar?


N.W: O que estamos vivendo é muito triste. A inexperiência e insensibilidade do presidente sendo exposta ao mundo, enquanto os casos de contaminação aumentam e tantas pessoas estão morrendo é algo desanimador… Eu espero que você que está lendo essa matéria, se puder, fique em casa.
Tomem todos os cuidados possíveis, até que enfim, tenhamos a tão sonhada vacina e possamos retomar nossas rotinas sem medo. A quarentena é um ato de empatia para quem está nos grupos de riscos ou que não tem acesso sequer às necessidades básicas, a fim de evitar a superlotação dos hospitais.
Espero que todos aproveitem ao máximo este momento para se informar mais e consumir mais arte e cultura. Temos muitos artistas divulgando seus trabalhos online, escritores, atores, cantores. Acho que a arte serve como um refúgio pra momentos como este e ela tem o poder de nos salvar das nossas aflições.

S.U: Gostaríamos de agradecer pela entrevista e esse espaço está aberto para as suas considerações finais.


N.W: Foi um papo bem profundo. Agradeço demais a oportunidade e convite de vocês.
Espero que com a minha música, as pessoas possam se reconectar com o rock e aqueles sentimentos tão intensos vividos na fase da adolescência, seja você quem for, como for.
Fiquem ligados nas minhas redes sociais, pois em breve começarei a contar mais sobre meu primeiro EP, chamado “desabafEMOs”, com 4 músicas inéditas e lançamento previsto para o segundo semestre. Os arranjos estão seguindo na mesma pegada hardcore, trarei outros temas pertinentes nas músicas e que geram a reflexão também.